Amor à palavra dita e escrita

 

“A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e como não acho.” O aforismo da escritora Clarice Lispector frisa a relevância do dialeto para conceber as próprias dimensões existenciais. À vista disso, a literatura pode esmiuçar amplos princípios ao lado de imprescindíveis lições ao jovem em construção, se for incitada de maneira deleitosa e receptiva, inicialmente. Ademais, é eminente o valor da “arte da palavra” como norteador da escrita, sobretudo, aos adolescentes, despertando-lhes a sustentabilidade da razão crítica e da liberal filosofia. Logo, o papel da literatura pontua, amplamente, a nutrição e a revisão dos valores no espírito dos cidadãos, levando-nos à empatia e sensibilidade.

Há alguns anos, encontrei, por acaso, no Facebook, uma imagem com uma frase de autoria desconhecida: “Todo o mundo é um leitor. Alguns apenas não encontraram o seu livro preferido.” De fato, todos nós somos leitores, seja de bula de remédio, de anedotas, de mensagens de auto-ajuda compartilhadas nas redes sociais, de obras clássicas, etc., no entanto, o teor da leitura, ainda, é insuficiente e bastante limitado, tendo em vista que, de acordo com uma pesquisa feita pelo Ibope, os brasileiros entrevistados, em 2015, leram, em média, só 4,96 livros: 2,43 foram terminados e 2,53 lidos em partes.

Além disso, ao contrário de filmes norte-americanos que, não raro, mostram pais amáveis lendo uma história infantil ao lado de suas crianças para adormecê-las, a maioria dos adolescentes brasileiros, na infância, decerto, não receberam alguma influência literária, pois isto — e outras responsabilidades dignas de serem perpassadas no convívio familiar —, como de costume na realidade excêntrica de nosso país, costuma ficar, em geral, a cargo da escola. Porém, no Brasil, a desinformação e a despreparação extremas de muitos pais pode ser, digamos, relevadas — obviamente, para lhe evitar, leitor(a), uma enxaqueca, com tantos problemas sociais que levam a outros, ainda, mais alarmantes —, restando à escola o compromisso de reverter tal realidade.

A princípio, a iniciação ao mundo da leitura se deve fazer à mediação de histórias deleitosas e receptivas ao indivíduo, a fim de que ela lhe revele a magnitude de experiências e satisfações que podem ser proporcionadas a quem se aventurar a lê-las. Por outro lado, conquanto os livros infanto-juvenis contemporâneos venham instigando uma nova vertente literária entre os jovens, a maioria dessas leituras tem apenas a finalidade de lucrar à custa deles.

Dessa forma, as primeiras obras, aquelas que foram escritas com paixão e pura dedicação, têm de ser, cautelosamente, escolhidas, de preferência, pelos profissionais da área de Letras de uma escola, para que possam oferecer ao aluno leitor iniciante uma expedição decisiva e intrínseca; porquanto incitam-no a compenetrar, mentalmente, um cenário onírico provido de simbolismos em busca de incertezas, verdades e múltiplos valores que, no geral, cooperam, beneficamente, para a formação individual de nossas identidades.

A mim, por exemplo, o mundo dos livros permitiu-me transitar por diferentes mentalidades, lugares, épocas e sociedades: em “As meninas”, de Lygia Fagundes Telles, senti, ao lado das antagônicas Lorena, Lia e Ana Clara, o medo e a insegurança comuns nos “anos de chumbo”, durante a ditadura militar, no Brasil; compadeci com a miséria espiritual e material de Macabéa, em “A hora da estrela”, de Clarice Lispector; e, tristemente, vi a luz da vida se apagar, em definitivo e dolorosamente, para Anna Kariênina, obra homônima de Liev Tolstói; e entre outras experiências literárias marcantes.

A posteriori, a literatura dá vazão à inspiração, incitando, por conseguinte, o indivíduo à criação da possível vivência, confirmando, desse modo, um outro excerto de Clarice: “Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade.” Nesse viés, dá-se abertura à composição de personagens que transpõem fatos, semelhantemente, vivenciados pelo escritor, revelando as suas cosmovisões em escritos e, simultaneamente, avivando e conferindo empatia e sensibilidade a seres fictícios que divergem ou convergem com seu caráter. Sendo assim, querido (a) leitor(a), o cidadão vai projetando e moldando, gradualmente, as seções de sua liberal filosofia e, ao mesmo tempo, a sua razão crítica seguida de concepções morais, sociais e éticas já definidas, ou ainda em andamento, acolhendo, por fim, a leitura e escrita como o amparo da literatura.

Enfim, é premente que o Ministério da Cultura trabalhe, eficazmente, para atribuir maior enfoque e extensão às diretrizes do Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), de modo a maximizar o quesito de fomento à leitura e à formação de mediadores nas escolas. Entrementes, os aparatos pedagógicos devem consentir livre-arbítrio aos discentes acerca dos gêneros literários que lhe fascinam, a fim de prepará-los para ler os clássicos da literatura nacional e mundial. Outrossim, é basilar que os docentes instituem e acompanhem o projeto de leitura e escrita “Escritores da liberdade”, da professora Erin Gruwell, por intermédio de livros que os exortem a escrever as próprias narrativas, como “O diário de Anne Frank”. Portanto, caro(a) leitor(a), como enunciou a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai: “Uma criança, um professor, um livro e um lápis podem mudar o mundo.”

 

Por Victor Hugo – Estudante de Direito – UFS

 

 

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