As palavras me escrevem

As palavras me escrevem. Não seria uma paisagem humana transmudável sem as palavras. Elas me humanizam. Conseguem ser pão. Conseguem ser hóstia e vinho. Que me perdoe o sacramento. É tão profunda como um filamento cortado. De um lado, impelem sentimentos. Do outro lado, um divã me espera. As palavras me estonteiam, eu me furto.

Vim com uma ideia, mas já me parto para outra. Retomarei ao texto quando sentir um estalar das palavras em minha mente. Talvez, um estalo forte, como abismo. Talvez, volte e conclua com reticência.

O que me resta? Submetido em mim, encurralado me deparo. Não pense que estar em si é liberdade. Como existe liberdade na posse, existe escravidão na alforria. Então, livrar-se é mentira. Pessimista sou. Não. Porque quanto mais a liberdade vem, eu a destoo. Impiedosamente, dou os castigos mais nocivos a mim mesmo. Sou a prisão não deglutida. Carece-me a proteína. Não da biologia. Da proteína que sobrepuja esta explicação minimalista, porque estou em mim. Como gritar abafado em mim? Como dizer em boca minha coadunada aos outros? Como atravessar-me se o meu oceano se esturrica? Desanima-me saber que a liberdade é não saber. Será que estou blasfemando para não entregar o jogo? Quantas vezes blasfemo assim para me safar de mim e de mim culpar os outros? Aflige-me o que há de lúcido.

Sobre a liberdade poderia dissertar por delongas horas, por orações extensas, firmes e inventá-la. Mas não sei de nada. A máxima do filósofo é certeira. Em mim, não há uma firmeza toda, há um fio que desfia outro fio. Uma ideia que empurra outra que, por fim, empaca as demais. Tudo que há em mim é escasso, em penúria, independente do lustre da minha vaidade camuflada na ideia de pobre de Cristo.

Resquícios de mim denotam feiura. Não no sentido físico. Dane-se o seu conceito físico. Desprovido estou. De mãos abanando sempre. Como adolescente que sou, ainda levo onerosa carga que a vida despeja em meus ombros como uma calota. O meu espiral se trunca. Nunca fui inteiro. Se eu fosse inteiro, não estaria em tantos pedaços esmaecidos, empalidecidos, como testamento de invalidez. O meu lutar é sobre o estado de invalidez que me consome. O meu estado de invalidez me rompe pouco a pouco. Ao me romper, fendas novas aparecem em feridas que não se estancam, cicatrizam sobre sangue púrpuro, como o olho atingido por mim. Como é o olho atingido por si? Naturalmente, desce em mim o estado criança. Gargalho à toa. Sou de vez em quando à toa. Não é lastimável assumir o à toa. Ruim é viver se murmurando à toa. Desligo o abajur. Acendo. Tenho medo da escuridão.

Contraditoriamente, a minha escuridão mora na solidão. A luz respinga em mim a vontade de ir ao mais elevado estado humano. É utópico e grandioso. Espero que seja gracioso e se não for nada gracioso, que os calos presentes na minha mão recitem em versos uma poesia sobre o impávido do monumental silêncio regido pelo pôr do sol no fim de uma tarde nublada.

 

Texto por: Abel Serafim – Estudante de Jornalismo – Universidade Federal de Sergipe

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