CONTO :UM DIA VERDE

Muitas coisas surgem em momentos inadequados, no entanto devem ser feitas. Foi ouvindo o jornal noturno com os familiares que Marieta despertou e se sentiu imersa em inúmeros devaneios. A notícia registrava uma ordem de corte para uma árvore na praça mais próxima de sua casa. A garota lembrava perfeitamente dos dias que sua mãe a levava para a mesma estrutura que no dia seguinte seria derrubada, não podia permitir que tal ato ruim pudesse se realizar.

Aquele dia teria um teste muito importante que estudara durante dias com muita vontade de tirar uma boa nota. Porém, a breve menção ao corte de uma árvore que esteve enraizada no mesmo lugar desde sua infância a fez querer mostrar sua longa insatisfação. Marieta levantou cedo, tomou um banho e ligou para seu melhor amigo, chamado Guilherme, ou Gui sendo a abreviação característica apenas da melhor amiga.

Um toque, dois toques, três toques. Finalmente uma voz de sono radiou os ouvidos da garota.

— Espero que alguém esteja agonizando — Falou o amigo no lugar do corriqueiro “Alô” — Não demora a falar Marieta, eu só preciso acordar 06h30min.

Já era esperado que a reação do acordar às cinco da manhã fosse essa. Mas, sabia acima de tudo que a amizade despertada entre os dois era maior que a barreira da simples preguiça. Logo, resolveu amostrar suas vontades e pedir a ajuda necessária, sabendo com toda certeza a resposta positiva a seus pedidos.

— Preciso da sua ajuda ao menos por um minuto, por favor — Ela respirou devagar e esperou que perguntasse qual o misterioso favor, quando Gui o fez, soltou o verbo — Vão cortar uma árvore da praça hoje, aquela que mamãe me levava antes do… — Resolveu não mencionar essa parte dolorosa que ainda passava em sua mente — Enfim, vou protestar. Preciso que me amarre na árvore.

Ele não entendeu muito bem devido ao sono, mas ajudaria a amiga em qualquer coisa que precisasse. Assim, assentiu positivamente e avisou que estaria na praça em dez minutos. Entendeu a parte de cortar a árvore na qual Marieta gostava de passar sempre quando retornavam da escola, entretanto não tinha assimilado direito à parte de amarrar a garota na árvore, assimilou apenas a parte de protestar.

Encontrou-se em quinze minutos, uma vez que Gui rolou na cama preguiçosamente por mais três minutos após o término da ligação. Quando chegaram ao local avistaram algumas pessoas que faziam seus exercícios matutinos, mas nenhum sinal de uma empresa destinada ao corte de árvores. Eles se abraçaram e sentaram em um banco próximo da estrutura verde e magnificamente bonita. A vítima defendida em questão deveria ter metros que Marieta não era capaz de opinar, folhas verdes que despontavam de galhos grandes e grossos, muitas dessas folhas estavam no chão da praça, sendo carregadas pelo ar que decorria da troca entre os humanos e as plantas¹, ar esse em grande quantidade no banco onde os amigos sentavam.

— Será que poderia repetir qual o motivo desse encontro tão cedo? Entendi apenas algum murmúrio sobre o corte dessa árvore — Gui ressaltou deixando a amiga com uma face raivosa, ele sorriu daquilo e apenas passou a mão nos lisos cabelos negros, esperando alguma detalhada explicação.

— Vem alguém cortar essa árvore hoje, parece que pretende colocar uma academia pública nessa área da praça — Ela soltou informações que pesavam ferozmente e despontavam infelicidade em sua face — Dentre tantas outras na mesma praça, logo essa?

— Conhecendo você da forma que conheço, sentir-se-ia triste com qualquer árvore que deixasse de existir nesse terreno — Sussurrou uma frase bastante culta para um garoto de quinze anos, mas não se importa com isso. Aprendera com Anne² que possuía esse direito — Mas, sei que essa dói mais e é a maior de todas.

Sem muito tempo para conversas que poderiam ser executadas quando estivesse amarrada naquele bem natural, Marieta puxou uma corda da bolsa que levara para a praça. Levantou e caminhou até a árvore pedindo com os olhos que o amigo a amarrasse. Ela pensou que teriam algumas discrepâncias quanto à forma de se protestar, mas Gui se aproximou e passou a corda pelo corpo dos dois, conseguindo amarrar seus corpos na árvore e sussurrando sua justificativa:

¹Referência a troca de oxigênio e gás carbônico entre as plantas e os seres humanos; ²Anne é uma figura clássica da literatura de Lucy Maud Montgomery que sempre lia muitos livros e colocava palavras difíceis em suas falas, sofrendo preconceito dos mais velhos que estranhavam o ato.

 

— Tem tempo que quero um dia verde, não vejo motivo existente para não fazê-lo.

Eles soltaram conversa sobre séries e jogos e se revezaram para segurar o único cartaz produzido. Algumas pessoas passavam por eles e lançavam feios olhares de incompreensão, afinal os indivíduos na praça queriam a construção daquela academia e não se importariam caso uma árvore precisasse parar de existir. Muitos não entendiam o ato e tantos outros que entendiam viravam o rosto para o movimento, no entanto Gui e Marieta não foram desmotivados.

A avó de Marieta apareceu quase onze horas da manhã acompanhada da mãe de Gui. Receberam uma ligação da escola informando a falta dos dois no ambiente e começaram a procurá-los. É fácil de se imaginar a surpresa daquelas duas ao descer a ladeira da Rua Cinco de Outubro e encontrar dois adolescentes amarrados em uma árvore segurando um cartaz de papel já rasgado em algumas partes.

Não tiveram tempo de dialogar com suas crianças, pois um carro parou no canto da avenida e começou a puxar cones para demarcar sua vaga estacionada e evitar colisões em meio ao trânsito. Quando os dois homens desceram e observaram os dois garotos amarrados na árvore, suspiraram forte e pegaram o celular a fim de resolver o problema. Marieta com medo de ser retirada a força por sua avó gritou e levantou a vontade do amigo em ajudar no coro “Não ao corte da árvore”. Repetiam constantemente a mesma frase chamando a atenção de várias pessoas que por ali passavam e fazendo com que muitos cidadãos parassem para observar, gerando uma aglomeração. Levantavam o cartaz já um pouco rasgado e perceberam uma sirene tão alta que doía até no pensamento dos indivíduos presentes na praça.

A polícia chegou e do nada o protesto inocente de dois jovens em prol da árvore se tornou uma coisa muito grande. Com a polícia, a rede de televisão também parou na avenida e começou a filmar a aglomeração que se seguia. Os garotos intimidados com todos os olhos sobre eles não paravam de ecoar “Não ao corte da árvore”. Os familiares presentes arranjaram dois capacetes de operário e colocaram em Gui e Marieta, não fizeram objeção e apoiaram o movimento com orgulho nos olhos.

Uma repórter ultrapassou o policial que mantinha as pessoas afastadas dos dois garotos e começou a entrevistá-los:

— Então… No que se baseia o movimento de vocês? — Perguntou a repórter com o microfone no rosto de Marieta — Qual a importância das árvores?

— Até responderia, mas meu amigo é mais culto. Deixo em suas mãos Gui — Afiada como a serra que cortaria a árvore, Marieta jogou a repórter para o amigo ao lado, que gaguejava muito na tentativa de dar umas respostas.

— Primeiro de tudo, é… Árvores são essenciais, é… Para se ter por perto, né? – Perguntou nervoso demonstrando a grave insatisfação de ser obrigado a prestar aquela entrevista. Olhou nos olhos da melhor amiga e mais uma vez compreendeu a importância do movimento, isso bastou para tomar coragem — Elas diminuem a poluição sonora e dos ventos, tem a saúde dos solos promovida por suas raízes, esse solo que eu piso, por exemplo, é saudável. Por qual motivo cortar um bem natural desse tamanho? Tal motivo não é compreendido por mim e por isso ecoou “Não ao corte da árvore” — Voltou a gritar junto de Marieta e a repórter se afastou por hora.

Os dois homens responsáveis pelo corte esperavam ao longe com sua equipe, um deles se aproximou dos garotos, sendo liberado pelo policial que mantinha a ordem da manifestação, e começou a olhar para eles pedindo algo apenas com esse ato. Ambos retribuíram o olhar para o homem entendendo a tentativa de sensibilização efetuada no momento, foi Marieta que desatou a falar:

— Eu não vou medir esforços para impedir que essa árvore seja cortada, primeiro existem os prejuízos ao meio ambiente, impensáveis por todos dessa cidade. A maioria se importa apenas em ter um lugar para seus exercícios, mesmo que outro ser vivo, habitante dessa área há mais tempo que minha existência, tenha morrido em prol daquilo — Ela chorava no momento, sentia a mão de Gui em seu ombro prestando suporte e sabia que em breve aquela manteiga derretida desabaria também — Minha mãe me trazia para brincar aqui, com bicicletas ou outras coisas, antes do câncer. Ela morreu ano passado depois da quimioterapia, foi forte demais para ela e eu venho aqui com o Gui depois da escola, nem sempre paramos e olhamos a árvore, mas sinto uma tremenda paz chegando aqui. Por isso nada que diga me fará mudar de ideia.

Falou muito alto com aquele homem e quando ergueu a cabeça muitas pessoas choravam e faziam silêncio. O próprio homem parou e deu os pêsames pela perda, os policiais olhavam para trás sem expressão na face e os familiares tinham lágrimas nos olhos de compreensão. Gui não soltara o ombro da amiga e juntos eles voltaram a ecoar acompanhados de uma multidão grande em um coro alto o suficiente para mostrar a força e garra de Marieta. Gritava o lema “Não ao corte da árvore” de forma forte e determinada, o chão parecia tremer e já não se ouvia o som das folhas verdes balançando com o vento.

Momentos depois o prefeito foi obrigado a dar um pronunciamento sobre a questão, ciente da situação pela reportagem no jornal da tarde,  e no jornal da noite a cidade foi informada que a árvore não seria cortada. Todos gritaram em alegria e os garotos puderam ser desamarrados depois de tanto clamor, sono e fome, seus familiares não saíram de perto e os manteve alimentados durante a maratona de protesto. A academia foi construída no lugar de um quiosque jamais usado por nenhum habitante, o teste perdido foi refeito em vista da atitude nobre exercida pela garota e as tardes de Gui e Marieta puderam ser resumidas em longas leituras e imensos devaneios sentados ao pé da estrutura imensa e graciosa. Assim, as memórias de infância ficaram vivas e outras tantas tinham a oportunidade de acontecer.

 

Por Andrey Oliveira – Estudante de Letras Vernáculas – UFS

 

3 thoughts on “CONTO :UM DIA VERDE

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *