Pós-verdade: crença versus fato

A Oxford Dictionaries é um departamento da Universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários. Todo ano, o departamento elege uma palavra para representar o ano. Em 2015, ao invés de escolher uma palavra, eles optaram por declarar o emoji de carinha chorando de rir como expressão do ano, sendo a primeira vez que a Universidade escolhe um emoji para classificar o ano na língua inglesa. Já em 2016, a palavra escolhida foi “pós-verdade”, fortemente utilizada nas mídias sociais, com um aumento de 2000% de seu uso.

Utilizada pela primeira vez pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich em 1992, a expressão diz respeito a circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos importância do que crenças pessoais, onde a opinião vale mais que a verdade. Ou seja, a palavra significa dizer que o que aparenta ser verdade é mais importante que a verdade propriamente dita.

Fonte: Dado Ruvid/Reuters

Em razão desse significado, a verdade tem perdido credibilidade e um dos impulsionadores dessa circunstância é a internet. Conhecida pela facilidade de propagação de informação, a internet tem colaborado para que notícias falsas se disseminem rapidamente e em larga escala. Isso acontece devido ao mau hábito do receptor de ler apenas a manchete, por muitas vezes sensacionalista, e compartilhar a informação sem verificar sua veracidade. Uma ferramenta muito usada para esse tipo de atitude errônea é o Facebook. A lógica utilizada pela rede social é de dar maior destaque aos assuntos que são mais curtidos e compartilhados. Então, uma vez que notícias falsas são facilmente disseminadas, a probabilidade de a mesma possuir credibilidade, ainda que seja inverídica, é grande.

Fonte: Getty Images

Firmemente instaurada no ambiente político, a pós-verdade ocasionou a proliferação de informações falsas que favoreciam campanhas políticas, como é o exemplo da campanha do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em sua campanha eleitoral, nem o Papa Francisco saiu ileso. Afirmações como o apoio do religioso ao candidato republicano, a declaração de que Barack Obama, ex-presidente da maior potência mundial, era mulçumano e que Hillary Clinton teria criado o Estado Islâmico foram propagadas durante o período das campanhas no país, sem a verificação da veracidade.

No Brasil, as crenças particulares também levam a informações falsas. Um exemplo disso é a morte da ex-primeira dama, Marisa Letícia, que foi acusada de ser uma farsa para que a mesma não fosse presa pela Operação Lava Jato. Independente de todos os fatos evidenciarem a veracidade da fatalidade, como o velório com caixão aberto, as pessoas insistam em acreditar que era pura encenação.

Fonte: Fernando Bizerra

A estabilização de um jornalismo qualificado, que atenda as necessidades da população, que promova a informação e ajude a construir uma opinião pública fundamentada na veracidade, depende do desapego às crenças individuais. Ler matérias em mais de um veículo e não compartilhar links apenas pelo título são atitudes a serem tomadas para que boatos e notícias falsas não sejam superiores às notícias verdadeiras e de relevância. Um título chamativo atrai, mas nem sempre comporta a verdade.

 

Matéria por: Camila Gerônimo – Estudante de Jornalismo – Universidade Federal de Sergipe

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