Carta para Helena

Joana, 29 de Maio de 1964

Querida Helena,

Como estás? Espero que esteja tudo bem contigo. Minha ausência nestes dias é imperdoável, mas o caso que se sucedeu entre os da minha casa me impedira de escrever-te. Deves estar a questionar que motivos teria eu para adiar-te o envio das minhas quimeras. Espero esclarecer-te completamente nas próximas linhas.

A brincar com Maria e João, a frente de casa, papai e mamãe estavam a nos olhar pela janela. Você então se questiona o que há de novo. Apesar de olhos abertos e vigiantes para nossas molecagens, seus ouvidos ocupavam-se com as últimas noticias no rádio. Choquei-me ao perceber que a ausência de sermões aos palavrões trocados estava me causando falta. A curiosidade não me deixou aquietar, e então, resolvi espionar o que se sucedera.

Encostando cuidadosamente ao pé da porta, ouvi um dedo de prosa dos meus pais. Eles falavam sobre uma tal intervenção militar que ameaçava chegar. Papai esbravejava sobre maus ventos que viriam, enquanto mamãe retrucava irritada sobre um tempo de esperança. Me vi perdida sem entender o que se passara e permaneci espiando.

Em meios aos gritos, papai, como advogado apaixonado, queixava-se de irregularidades perante a lei, já mamãe justificava que tudo viria para melhorar, que seria tempos de segurança para andar as ruas, solução para diminuir a violência. Confusa e curiosa, como sabes que sou, sem entender o que aconteceria de fato, resolvi ignorar os sons estridentes e prestar atenção nas informações que saia do rádio. Logo, Helena, o que eles tantos falavam era sobre o poder das forças armadas que iram interferir nas ruas. Porém, como papai esbravejava, essa tal intervenção não se sustentava na constituição. Não sei se na sua escola nova já ouviu falar sobre isso, eu sem entender o que seria tudo isso me segurava para não encher meus pais de perguntas e destruir o meu esconderijo. Entrou no ar um convidado do programa que argumentava como mamãe: ele falava de legitimidade política mesmo sem a aprovação direta de um tal congresso. Note, minha afetuosa amiga, a cada nova informação só ficava mais perdida. Que diabos era aquilo que fazia papai e mamãe brigar?

Ao voltar minha atenção para eles, mal pude acreditar no que ouvia. Se recorda da briga de Laura e Yara na pracinha? Meus pais estavam iguais. Falavam tão alto que nenhum dos dois se ouvia. Então, me atrevi a olhar a cena que parecia violenta. Querida amiga, que péssima escolha eu fiz. Bem sabes do meu riso frouxo e ao ver papai e mamãe vermelhos como tomates aos berros ele logo soou pelo lugar. Fui pega! O que me resultou em um castigo terrível, perdendo brincadeiras e as horas de escrita para ti.

Hoje fui absolvida após horas de sermões sobre meu ato de má educação e logo corri para te escrever. Foram dias terríveis sem ter notícias suas, pensando que se ainda estivesse na cidade teríamos sido castigadas juntas e isso seria mais divertido. Poderíamos voltar a usar o nosso telefone sem fio, que falta sinto!

Termino com muitas saudades, ansiosa por sua resposta.

Carinhosamente, Joana.

 

Texto por: Kemily Abreu – Estudante de Jornalismo – Universidade Federal de Sergipe

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