Sendo, NADA, Indo

A minha cabeça nunca soube o que significa se aquietar e ela gosta de viajar por lugares que nem sabe se existem. Hoje ela me propôs pensar em viajar fisicamente, sem rumo, conhecendo o Brasil que só conheço por informações (não posso negar que as aulas entram em mim). Daí comecei a imaginar ser de lugares por uma semana ou mais e não ser de nenhum deles e pensei: “não ser? (…) como não ser?”. Eu não posso não ser, se eu nunca fui. Nunca fui daqui onde cresci e nem de onde fui morar, as ruas não são minhas amigas e as portas e janelas são sempre novas para mim, as cores não me reconhecem e eu não as reconheço. Elas também não pertencem e estão viajando pelas possibilidades de existir. É engraçado como as coisas parecem nada e são tão parecidas com a gente.
Agora eu parei e fiquei olhando as cores da minha casa e os tons de verde dos galhos da árvore que se amostram na minha janela. Eles balançam calmos e os passarinhos passam rápido como vultos, cantando para ninguém. As cores aqui são quentes, o chão também. Minha mainha tem fascinação por vermelho, é impossível não se sentir queimar. Eu, então, concluo que a gente não pertence a nada, mas tem um lugar que nós amamos não pertencer e voltamos. Voltamos para sentir o sentimento que já nos é familiar, da sensação do vento nos galhos, das novas cores nas antigas casas, de marcar os passos outra vez na rua que ainda não te abraçou e de queimar dentro do seu conforto em não ser. E é por isso que o meu rapaz deseja fugir na madrugada com um som que o transporte, buscando sentir o que ali parece impossível, só quer ir, ir sem saber onde parar. Ele sabe que tem pra onde voltar e é por isso que ele vai e deseja ir mais. A gente só vai por ter para onde voltar mesmo quando o lugar não é mais o mesmo.

Texto por: Kemily Abreu – Estudante de Jornalismo – Universidade Federal de Sergipe

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